Reflexões
de um ex-traficante
HOJE é o quinto aniversário do dia mais solitário
na vida de Jaques Chutam, um paulistano de classe média
alta, ex-estudante de engenharia, cujo maior prazer era surfar
nas ondas do I lavai. Em 25 de outubro de 2004, uma manhã cinzenta
e fria, ele foi metido numa cela, em Lisboa, acusado de tráfico
de drogas.
Naquele exato momento, descobriu-se adulto alguém
habituado à amplidão do mar estava num cubículo
de oito metros quadrados.
Até então, era capaz de plantar maconha numa
reserva florestal protegida, em Honolulu, sem ver perigo.
Traficava no eixo Brasil-Estados Unidos, mas, no íntimo,
achava que nunca daria em nada. É um típico
caso de clichê fundo do poço: empanturrava-se
de crack nas fétidas calçadas ao redor do Ceagesp,
forjou o próprio seqüestro, viajou para surfar
quando a filha estava para nascer. Perguntei-lhe por que
um indivíduo rico, com tantas possibilidades,
vira traficante.
Depois de sair da cadeia, no ano passado, Jaques colocou
sua história no papel, com o título de "Surfista,
Ex-Drogado, Ex-Traficante" (editora Francisco Alves),
livro lançado na semana passada. •' Meu interesse
estava aguçado por causa de conversas que tive com
jovens de classe média, presos na Fundação
Casa (ex-Febem) —estima-se, entre policiais, que está crescendo
o envolvimento de jovens mais ricos na venda de drogas, o
que se reflete nas estatísticas prisionais. Documentos
oficiais indicam que 30% da ex-Febem vêm de famílias
com maior poder aquisitivo.
Jaques Chulam reafirma as pistas que colhi nas entrevistas. "Há um
tipo de jovem que não amadurece porque não
aprendeu a ver limite nas coisas, sempre acha que, no fim,
alguém acaba dando um jeito." Quando ele foi
preso em Lisboa, já tinha passado dos 30 anos e se
sentia impune —era o que psicólogos chamam de"adultesccnte".
Isso explica por que ele se drogava, bêbado, no banheiro
do avião, apesar de ter quilos de cocaína na
bagagem e ter de enfrentar a alfândega de Los Angeles.
Voltava para a poltrona com o nariz branco, a ponto de ser
advertido por uma irritada aeromoça. "Minha vida
se tornou uma constante viagem. Um filme com um único
personagem; eu".
A falta de limite é, em sua visão, estimulada
com a convicção, no Brasil, de que rico não
vai para a cadeia. Sempre haveria um jeito de contratar um
bom advogado ou, mais fácil subornar um policial —o
episódio dos policiais que roubaram os ladrões
que roubaram e mataram um educador do AfroReggae não
ajuda a desestimular essa convicção.
"É
como se fôssemos educados com a noção
de que sempre é possível manipular. Quanto
mais o jovem acreditar em seu poder de manipulação,
pior." Depois de forjar seu próprio seqüestro,
Jaques foi internado numa clínica "Manipulei
os psicólogos. Em menos de uma semana, tive alta,"
A incapacidade de ver o perigo e a sensação
de impunidade se somam, para Jaques, ao status que a droga
confere ao traficante. "Viramos o centro da festa, rodeados
por ura bando de meninos e meninas que passam n bajulá-lo." Chegou
a organizar raves que, além de garantir seu status,
davam-lhe a garantia de ser fornecedor de drogas. Ganhava,
portanto, duplamente.
"À
situação degringola de vez quando o traficante
se transforma em viciado —ou começa a traficar
porque se viciou. "É inacreditável que,
quando estamos na viagem, não percebemos que essa
combinação só pode dar em cadeia ou
cemitério, tantas são as bandeiras que damos." Aprendeu
o que significa se enganar com os amigos. "Nesse tipo
de ambiente, os amigos são sombra. Só aparecem
quando estamos brilhando."
Na terça-feira passada, quando conversamos, Jaques
estava embarcando em mais uma viagem, dessa vez para a China,
onde iria importar produtos marítimos numa feira internacional —quer
fazer do mar seu principal negócio.
Sentia-se, brilhante, animado com o livro. Mas parece
ter aprendido, com tantas manipulações e autoenganos,
que vai ter de se esforçar pelo resto da vida para
poder manter os "ex" do título do
seu livro, exceto ser surfista.
PS - Um fato ajudou Jaques a escrever o livro. Na prisão,
em Lisboa, ele, que não gostava de ler, ficou responsável
pela biblioteca o que lhe pareceu, diante das demais ofertas,
o melhor emprego do mundo. A combinação de
excesso de tempo com reflexões sobre sua vida, com
suas sombras, estimulou a idéia de escrever um livro,
que serviu como uma espécie de acerto de contas. GIlberto Dimenstein - Folha de São Paulo - 25/10/2009
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