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Vida de mulher

Longe dos gramados, Marta Vieira da Silva, 23, a melhor jogadora de futebol do planeta em 2006, 2007 e 2008, dá autógrafos, posa documente para fotos e não desperdiça sorrisos com jornalistas. Move-se depressa pelo saguão do hotel Parque Balneário, em Santos. Emprestada por três meses ao Santos F.C. pelo time americano Los Angeles Sol, hospedou-se ali até se mudar para o apartamento que o clube alugou para ela. Franzina, 1,62 m, Marta é uma estrela internacional. Com jogadas brilhantes e velozes, ajudou a consagrar a seleção feminina brasileira e desferiu um pontapé certeiro contra o sarcasmo que o país do futebol dedicava a suas jogadoras.

A presença de Marta agitou Santos -a cidade e o clube. Ao descobrir que é Marta a moça de agasalho azul que recebe um Renault preto das mãos do manobrista, os transeuntes param e cochicham, sorridentes, mas ela ignora o zum-zum-zum. Durante o treino no Centro Técnico Meninos da Vila, numa tarde de outubro, a platéia desafiava um segurança obstinado em afugentar do campo as crianças da favela de Sabuó, ali do lado.
A chegada de Marta, segundo o técnico Kleyton Lima, o mesmo da seleção brasileira, não chegou a alvoroçar uma equipe que tem oito medalhistas olímpicas. Mas inflou o público, atiçou o interesse dos patrocinadores (fecharam com o time o banco BMG, a COPAGÁS, a Lupo e a Universidade Santa Cecília) e elevou o teto de remuneração das jogadoras. O administrador de empresas Guto Assumpção, diretor do Departamento de Futebol Feminino do Santos, esquiva-se de confirmar o salário de Marta que circulou pela imprensa -R$ 150 mil-, mas garante: "Qualquer que tenha sido o investimento do clube, eleja se pagou".

DOR DE CABEÇA DA FAMÍLIA

Ainda é um mundo modesto, se comparado ao do futebol masculino, em que um craque como Ronaldo pode ganhar R$ 500 mil mensais, mas tem avançado muito. Um decreto-lei de 1941 proibia o futebol feminino, sob a aleqação de que o corpo da mulher "não era adequado para isso". Em 1980, a proibição caiu, mas a questão do corpo das atletas ainda gerou confusões constrangedoras -em 2003, quando a seleção feminina conquistou uma medalha de ouro, um diretor da CBF manifestou seu desagrado: as jogadoras, segundo ele, eram "feias". Até hoje um esporte amador, a modalidade conquistou a admiração de boleiros e comentaristas, que finalmente enxergaram a beleza do jogo -vêem nele uma reserva de futebol-poesia. "Soa para nós como a epifania de um futebol antigo e redivivo", descreveu o professor e ensaísta José Miguel Wisnik, no livro "Veneno Remédio" (Companhia das Letras). "Virou orgulho nacional", diz Milly Lacombe, da Record News.

Marta começou a jogar aos seis anos, na rua, com os irmãos e os primos, em Dois Riachos, cidade de 11 mil habitantes no sertão alagoano. O gol eram duas pedras no chão e a bola, às vezes, uma maçaroca de sacos plásticos. Ter uma menina craque era dor de cabeça para a família, motivo de resmungos da avó, dos tios, do dono da venda. "Todos me perguntavam: Vai deixar sua filha jogando no meio de menino macho?"', recorda a mãe de Marta, Terezinha, descansando num sofá do hotel de Santos, onde passou alguns dias.

Terezinha criou os filhos só, trabalhando como zeladora da Prefeitura e empregada doméstica -o marido saiu de casa quando Marta completou um mês. O filho mais velho, José, então com dez anos, arranjou emprego numa venda. Marta só chegou à escola com nove anos. "Eu queria ir, mas minha mãe não tinha condição de comprar roupa, sapato e material para todo mundo", explica. Os garotos da escola relutaram em aceitá-la no time que participava dos campeonatos de futsal da região. Cederam depois de muitos gols e de um troféu de melhor artilheira. "Precisei dar umas porradas", diz, brincalhona. Foi o coordenador desses jogos, um carioca que viveu em Alagoas, quem levou Marta para uma peneira no Vasco da Gama, em 2000. "Eu perguntava toda hora quando ia ser o teste, e ele desconversava", ela recorda. "Um belo dia, falou: 'é hoje'". Lembra que ficou nervosa na hora do teste, e que as outras meninas, "mais malandrinhas", riram do seu jeito acanhado -'"Parece um bichinho do mato', elas falaram". Depois, os homens do clube vieram lhe dizer que precisava assinar os papéis e ela compreendeu que fora aprovada. No dia seguinte, começou a treinar e não voltou mais para a casa da mãe. Tinha 14 anos, estava na quinta série primária, e sua vida profissional estava começando.

O PRIMEIRO SALTO ALTO

"Se tivesse ficado em Dois Riachos, ia casar, ter filhos e passar o resto da vida lá", avalia Marta. "O futebol era a única maneira de ajudar minha mãe e ganhar algum dinheiro." A irmã, Ângela, que gostava de Michael Jackson e cantava músicas inteiras sem saber uma palavra de inglês, mora perto de Maceió com o marido e os dois filhos, numa casa que Marta ajudou a comprar. José, o irmão mais velho, trabalha com uma camionete que ganhou de Marta. "Leva passageiros, leva carga, pessoas doentes e até alguém que morre", explica Terezinha. Valdir é pedreiro.

Marta vive sob os holofotes, em cidades distantes, em contato com atletas do mundo inteiro. De 2004 a 2008, jogou na Suécia, e, em 2008, foi para o time do Los Angeles Sol, ao lado de atletas dos Estados Unidos, do Canadá, da França, da Suécia e da China. Mora num apartamento em Redondo Beach e freqüenta a casa que outras jogadoras dividem em Beverly Hills. "De vez em quando, a gente faz um churrasco", conta. Marta não gosta de morar sozinha, sente falta de ter com quem falar, e concluiu que namorar é complicado para as mulheres jogadoras. "Vivo mudando de cidade, de país. Os homens podem bancar e sempre arranjam mulheres dispostas a acompanhá-los, mas quem é que topa ficar andando atrás de uma jogadora de futebol?" Seu grande amigo nos Estados Unidos é um americano, assessor de imprensa do clube.

Para receber o prêmio da FIFA de melhor do mundo em 2006, na Suíça, cedeu aos apelos da madrinha, Risolândia Lira Duarte, e calçou pela primeira vez sandálias de salto alto, em vez dos tênis e chuteiras número 36. Riso se encarrega de muitas tarefas para a afilhada, como levá-la ao cabeleireiro Agnaldo, de Maceió, para fazer escova progressiva, até despachar para Dois Riachos as malas de chuteiras que Marta consegue na Puma, sua patrocinadora, para a criançada local.

No domingo, 18, diante de um público inédito de 14.138 pagantes, na Vila Belmiro, ela ajudou o Santos a vencer o paraguaio Universidad Autônoma por 9 X O e conquistar a Taça Libertadores da América de Futebol Feminino. Diante das câmeras, agradeceu à mãe, ao público e à nação santista, e lembrou a todos: "Mulher sabe jogar isso aqui." Estava chorando. Mesmo para uma campeã mundial, era um grande momento, que dirá para uma garota de Dois Riachos no país do futebol.